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TESHUVÁ PASSO A PASSO – DEIXANDO DOUTRINAS HUMANAS (EP. 10)

 


DEIXANDO DOUTRINAS HUMANAS - PARTE I

 

Emília* (nome fictício) vai ao culto de uma importante denominação. Ela, que começou a ler a Bíblia recentemente, resolveu fazer uma visita. Logo ela percebe, pelos olhares que a cercam, que há algo inadequado na forma como ela se veste. Ela encontra alguém que pacientemente lhe instrui que ela deveria ter trajado saia, e não calças.

 

Não muito longe dali Oswaldo* (nome fictício) está muito feliz. Na semana passada foi o seu batismo, e pela primeira vez ele poderá participar da santa ceia em sua denominação, que impõe como condição para participação o batismo. Afinal, para participar da santa ceia, é preciso discernir o corpo, e somente um batizado se torna parte desse corpo.

 

Em outra cidade, Robson* (nome fictício) entra em contato pela primeira vez com uma denominação que diz resgatar as raízes judaicas da fé. Ao chegar no local, Robson é informado de que ele só poderia entrar se colocasse um solidéu, chamado pelos presentes de kipá. Ao final da reunião, a esposa de Robson recebe uma tabelinha com horários e é instruída a acender velas em tal horário, como forma de observar o shabat.

 

Em outra comunidade semelhante, Alfredo* (nome fictício) aguarda ansiosamente a chegada da festa de Chanuká, uma popular festa judaica. Alfredo já comprou sua chanukiá – um candelabro de nove braços - e sabe que deve acender as velas diariamente, para celebrar o milagre do óleo. Para Alfredo, essa festa é muito importante, pois nessa época Alfredo seguia enganosamente a festa do natal. Alfredo está feliz por ter se libertado de tal coisa.

 

Vamos analisar as quatro histórias e ver o que elas têm em comum. Comecemos pela história de Emília.

 

Primeiramente é importante entender que a Bíblia ensina que deve haver decência de comportamento, o que obviamente passa por decência ao se vestir:

 

Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos, mas com boas obras, como convém a mulheres que professam temor a Elohim.” (1 Timóteo 2:9-10)

 

Não sigais o costume dos estrangeiros de adornos de cabelo, usar joias extravagantes, ou roupas exageradas. Mas sigais o costume do homem modesto, que tem espírito humilde, o qual é como adorno incorruptível e excelente perante Elohim.” (1 Pedro 3:3-4)

 

Ou seja, o que as Escrituras estão dizendo passa por duas coisas, as quais, aliás, são de muito bom senso. A primeira é que a mulher deve se vestir com modéstia, e não com roupas provocativas ou excessivamente sensuais. A segunda é que uma congregação não é um desfile de moda. Nem o homem nem a mulher devem se vestir de forma extravagante, de modo a chamar atenção por suas roupas. Pelo contrário, o que deve se sobressair é o comportamento de fazer o bem e agir em humildade.

 

De onde vem então a ideia de que a mulher supostamente não deva usar calças? Vem da passagem a seguir:

 

Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é a YHWH teu Elohim.” (Deuteronômio 22:5)

 

Nesse ponto, é interessante notar que nos tempos bíblicos tanto homens quanto mulheres usavam as mesmas peças de roupas. Um exemplo disso é o ketonet, que é traduzido como vestido ou túnica. O primeiro momento em que aparece, é quando o próprio ETERNO os faz tanto para Adão quanto para Eva:

 

E fez YHWH Elohim a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.” (Gênesis 3:21)

 

A diferença, nos tempos bíblicos, estava nos detalhes. Uma túnica de uma mulher seria adornada com cores e padrões diferentes dos masculinos. Isso se pode dizer para os seus xales, entre outras coisas. De um jeito ou de outro, a sociedade da época sabia distinguir o que era de homem e o que era de mulher.

 

Torá, a Lei dada pelo ETERNO a Moisés, proíbe o travestismo, ou seja, um homem não deve se vestir de mulher, nem uma mulher se vestir de homem. A partir daí a denominação de Emília criou um mandamento próprio: mulheres não devem usar calças. Mesmo que as calças sejam femininas e claramente vestimentas de mulher.

 

Existe aí um acréscimo às Escrituras, um mandamento criado por homens e que é imposto sobre a comunidade, a qual Emília deve seguir caso deseje fazer parte dessa denominação. Mandamento esse que não tem qualquer respaldo nas escrituras.

 



Analisemos agora a história de Oswaldo. Nos passos anteriores falamos sobre o erro de considerar a “santa ceia” como a instituição de uma nova prática, desconectada do seu evidente contexto bíblico, que é a Pessach - a chamada “páscoa bíblica”. Mas não será essa a nossa abordagem aqui. Vamos, por hora, ignorar essa diferença para falarmos da questão da exigência do batismo. Será mesmo que para participar da mesa de Yeshua é preciso ser batizado?

 

O texto que é usado pela denominação de Oswaldo para justificar essa exigência é o seguinte:

 

Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. (1 Coríntios 11:29)

 

Leia, porém, o contexto que leva a essa conclusão de Paulo:

 

Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na congregação, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não comeis nem bebeis de forma adequada ao dia de nosso Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a congregação de Elohim, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo.” (1 Coríntios 11:17-22)

 

Observe o que estava acontecendo em Corinto. As pessoas se reuniam para celebrar a Pessach (“Páscoa”) e brigavam! E além de brigar uns iam para se embriagar! Outros logo enchiam o prato, e com isso deixavam alguns com fome! Ou seja, não havia em Corinto naquela ocasião uma atmosfera de comunidade, um senso de coletividade. Não compreendiam que estavam juntos para celebrar a alegria de pertencerem ao povo que o ETERNO havia libertado da escravidão, tanto do Egito quanto do pecado.

 

E o ato de se embriagar ou de se empanturrar de comida - ao ponto até mesmo de deixar os outros sem nada - indica que eles estavam mais preocupados com si próprios e com sua satisfação pessoal do que com estarem em comunhão, compartilhando com seus irmãos.

 

Esse, portanto, era o discernimento que faltava a Corinto, e não o conhecimento sobre dogmas denominacionais, muito menos ainda o batismo!

 

Essa prática, na realidade, deriva do catolicismo romano, que vê o batismo e a eucaristia como ritos iniciáticos, e que devem seguir uma ordem:

 

"hoje em todos os ritos, latino e do oriente, a iniciação de adultos começa quando eles entram no catecumenato e atinge sua culminação numa única celebração dos três sacramentos de iniciação: batismo, confirmação e eucaristia. Nos ritos do oriente a iniciação cristã de crianças também começa com batismo seguido imediatamente da confirmação e da eucaristia, enquanto no rito romano é seguido de anos de catequese antes de ser concluído posteriormente pela confirmação e eucaristia, o ápice de sua iniciação cristã." (Catecismo da Igreja Católica 2:1:1233)

 

Evidentemente, tal ideia de ritos iniciáticos é contrário às Escrituras, que também não coloca nenhuma condição para participar da mesa do ETERNO. Pelo contrário, quando estudamos as Escrituras, vemos que a Pessach, a “Páscoa”, era celebrada inclusive por crianças - que, nas Escrituras, não aparecem recebendo imersão (outra invenção romana):

 

E acontecerá que, quando vossos filhos vos disserem: que serviço é este? Então direis: este é o sacrifício do Pessach a YHWH, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu aos egípcios, e livrou as nossas casas. Então o povo inclinou-se, e adorou.” (Êxodo 12:26-27)

 

Observe que as crianças que estavam participando sequer sabiam o que estava acontecendo, e aprenderiam na hora, na prática! Sem qualquer tipo de “profissão de fé” ou “catequese”, conforme quer fazer crer a doutrina romana.

 



Falemos agora da história de Robson. Quando Robson chega à denominação que busca restaurar suas raízes judaicas, ele logo é orientado a cobrir sua cabeça com um solidéu - uma kipá. Sem isso, Robson sequer pode adentrar o local.

 

Porém, não há nas Escrituras nenhuma menção ao ato de cobrir a cabeça para adentrar a presença do ETERNO. Esse costume não acontece nem mesmo no meio judaico até a idade média!

 

Segundo Shmuel Safrai, professor emérito de história judaica do período talmúdico e mishnaico, da Hebrew University, afirma:

 

"é certo que Yeshua, um judeu residindo na terra de Israel no primeiro século, não usava uma kipá (solidéu). O costume de usar uma kipá surgiu na babilônia entre os séculos terceiro e quinto, entre os residentes não judeus - os residentes judeus da babilônia ainda não haviam adotado esse costume, conforme as pinturas da [sinagoga] dura-europos mostram - e passaram de lá para a comunidade judaica na Europa. Apesar dos sacerdotes usarem um migba'at (uma cobertura de cabeça tipo um turbante - ex. 28:4, 40; lv. 8:13), outros judeus do período do segundo templo não usavam uma cobertura de cabeça. Isto é confirmado tanto pela literatura quanto por restos arqueológicos do período. Por exemplo, as gravuras no arco de Tito em Roma, que representam a procissão da vitória em Roma logo em seguida à conquista de Jerusalém em 70 dc., mostram os judeus cativos de cabeças descobertas. Semelhantemente, as pinturas da sinagoga de meados do terceiro século escavados em dura-europos representam todos os homens judeus com as cabeças descobertas, exceto por Aarão o sacerdote." (did jesus wear a kippah?)

 

A partir do séc. XIII, o costume de cobrir a cabeça durante o culto tornou-se cada vez mais obrigatório, conforme as perseguições da igreja aumentavam. Por conta disso, a aversão judaica a tudo o que era cristão se aprofundava. Enquanto o descobrir da cabeça tornou-se associado à etiqueta na igreja, ele tornou-se repugnante no meio judaico.

 

Adorar ou mesmo ir a sinagoga com a cabeça descoberta era considerado uma imitação aos cristãos e um ato de irreverência para com Elohim. Por outro lado, segundo os rabinos, a cobertura da cabeça se tornou um ato de piedade judaica. E por conveniência a kipá, ou seja, o solidéu foi adotado.

 

Observe que a denominação de Robson impõe a ele um costume extrabíblico como sendo obrigatório, coisa que constitui um mandamento de homem. A denominação de Robson cai no mesmo erro tão comum a muitas delas: o de adotar, sem critério, diversos costumes e práticas do judaísmo rabínico, que é essencialmente o descendente moderno do farisaísmo.

 

Semelhantemente, a esposa de Robson recebe como instrução para o shabat o acendimento de velas - coisa que, mais uma vez, as Escrituras não determinam. E pior: a esposa de Robson não faz a menor ideia de como é o shabat, como observá-lo, o que deve ou não ser feito, e já está sendo compelida a seguir costumes extrabíblicos!

 

Fique tranquilo que a prática do shabat será abordada em nossa série, mais adiante. Aqui, porém, o ensinamento é outro: o de que devemos tomar muito cuidado com práticas extrabíblicas. Robson e sua esposa, assim como tantos outros, se sentem mais israelitas, e mais espirituais por adotarem costumes do judaísmo moderno, bem como uma série de práticas extrabíblicas.

 

O requisito para sermos parte do povo do ETERNO estão muito claros na Torá, na Lei que Moisés recebeu do ETERNO, e que foi ratificada por Yeshua:

 

Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes... Andarei no meio de vós, e eu vos serei por Elohim, e vós me sereis por povo.” (Levítico 26:3,12)

 

Aquele que, através de Yeshua, é enxertado em seu povo Israel, torna-se parte do povo se receber a Yeshua como Senhor. Isto é, se obedecer aos seus mandamentos.

 

Continua na parte II

 

Francisco Adriano Germano

Compilação de diversas fontes

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