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O MENOR NO REINO DOS CÉUS


 

Fui recentemente surpreendido por uma pergunta que me deixou intrigado e me motivou a aprofundar meus conhecimentos sobre o tema. Reconhecer nossas limitações, especialmente em um contexto de ensino, nem sempre é fácil. No entanto, é nesse momento crucial que devemos abraçar a postura de aprendizes, revisitando conceitos e buscando novas perspectivas. Somente assim poderemos alcançar as respostas que guiam à verdade nas escrituras. Admitir que não sabemos algo pode ser, muitas vezes, o melhor caminho para alcançarmos a verdade.

 

Em conjunto com meus alunos, dedicamos um tempo considerável à análise da questão em pauta. Optamos por não fornecer uma resposta definitiva, mas sim, aprofundarmos a discussão e identificarmos algumas inconsistências na passagem em questão. Diante disso, realizamos uma pesquisa para revisar a tradução diretamente do aramaico original.

 

Em primeiro lugar postarei a passagem, como aparece tradicionalmente nas bíblias em português e veremos a contradição.

 

Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.

Mateus 5.17-20

 

Yeshua inicia falando que não veio para abolir a Torá (Lei), mas falando da sua importância. Ele prossegue dizendo que a Torá serve enquanto a terra não passa pelo Olam Habah (Mundo Vindouro), ou dentro de um conceito rabínico tradicional, pelo Tikun Olam (Restauração do mundo).

 

No versículo 19, ele afirma que quem desobedece ou quem ensina a desobediência ao ETERNO será o menor no reino. Porém os que cumprirem serão chamados grandes. A aparente contradição seria que logo em seguida Yeshua diz que se a nossa justiça (falando da obediência à Torá) não exceder a dos escribas e fariseus, jamais entraremos no reino.

 

Ora, quem desobedece entra sendo menor ou não entra?

 

De fato, não estamos falando sobre pessoas ignorantes dos preceitos da Torá, mas de pessoas que têm ciência dos mandamentos, porém, desobedece e ensina a outros a desobedecerem.

 

Mas Elohim, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam.

Atos 17:30

 

Yeshua estava falando para pessoas que conheciam os preceitos da Torá e mais do que isso, Ele estava ensinando para seus discípulos para que ensinassem outros a andar nas Escrituras. Mesmo nos tempos de Yeshua havia pessoas que, apesar de conhecerem a Torá, muitas vezes desobedeciam por conta de alguma tradição ou ensinamento de homens. Esses “mandamentos”, muitas vezes tomavam o espaço da Torá do ETERNO.

 

Vejamos no Talmud, algumas citações que mostram o quanto isso era forte entre os fariseus:

 

Rava explicou: Meu filho! Tome cuidado acerca dos decretos rabínicos ainda mais do que a Torá. Porque a Torá contém requerimentos e proibições, enquanto os decretos rabínicos: qualquer que violar um decreto rabínico merece a morte” (Eruvin 21b)

 

No Talmud, há citações que o ETERNO, segundo a doutrina deles, deveria submeter-se aos mandamentos dos rabinos e mais: os mandamentos rabínicos seriam mais importantes do que a Torá:

 

Uma pessoa não deve dizer ‘Eu não observarei o mandamento dos anciãos porque eles não são da Torá.’ O Todo-Poderoso diz a essa pessoa “Não, meu filho! Ao contrário, tudo o que eles decretarem sobre ti, observai… Até Eu (YHWH) devo obedecer ao decreto deles…” (Pesikta Rabbati 3)

 

Logicamente, é claro, que YHWH, O Sagrado Bendito seja Ele, jamais se submeteria a qualquer ser existente!

 

O versículo 19 foge da doutrina das Escrituras, bem como do contexto. Como poderia Yeshua deixar uma frase fora de seu contexto ou do que diz as Escrituras? O ETERNO falando ao profeta Ezequiel, no capítulo 33, versículos de 1 a 9 parece afirmar algo contrário, justamente falando dos líderes de Israel.

 

Nesse sentido, a única passagem fora do contexto do discurso em Mateus capítulo 5 parece ser o versículo 19. Buscaremos no aramaico a resposta para essa aparente contradição e faremos a tradução do texto:

 

Matityahu 5:19 כֻּל מַן הָכִיל דּנֵשׁרֵא חַד מֵן פּוּקדָּנֵא הָלֵין זעוּרֵא ונַלֵפ הָכַנָא לַבנַינָשָׁא בּצִירָא נֵתקרֵא בּמַלכּוּתָא דַּשׁמַיָא כֻּל דֵּין דּנֵעבֵּד ונַלֵפ הָנָא רַבָּא נֵתקרֵא בּמַלכּוּתָא דַּשׁמַיָא.

 

Mateus 5:19 (aramaico) – Kol man hakil deneshre chad men pukdane halein zeurê wnalef hakanah labnaynasha btzirah netqreh bəmalkutah dashmayah kol den dne’bed unalef hanah rabah netqare bemalkutah dashmayah.

 

Todo aquele, portanto, que libertar1 uma [pessoa] a partir dos2 mandamentos e este ao menos ensinar assim a um homem, será chamado menor no reino dos céus, mas todo que praticar e ensinar, esse será chamado rabino no reino dos céus.

 

1 A palavra “deneshre” tem as possíveis traduções afrouxar, apresentar, começar, soltar, comer, águia. Na maioria das traduções é visto como soltar.

2 Men significa vindo de (a, o), do, da, a partir de.

 

Após uma análise mais aprofundada, podemos observar que este versículo está em concordância com as Escrituras. O ponto crucial reside no fato de que, em termos de recompensa – e não de salvação –, o menor é aquele que apenas ensina alguém a andar. Ou seja, aquele que ensina alguém a andar é considerado "pequeno", mas aquele que ensina e pratica será chamado “elevado” (Rabino) no Reino dos Céus.

 

Devemos ensinar, mesmo que somente um mandamento a alguém, ainda que este não siga a Torá como modelo de vida. Se esta pessoa aprender somente esse mandamento, já colocamos o Reino em prática, pois o reino é simples. Se alguém se submete ao Rei, o reinado dele já é estabelecido!

 

Vemos muitos professores que têm em sua falta de conhecimento ensinado a amar o próximo e a abandonar a idolatria. Mesmo que se concentrem em apenas um aspecto da Torá, vemos que mais pessoas se submetem aos mandamentos do ETERNO.

 

Segue a sequência do texto, direto do aramaico:

 

Não penseis que vim abolir a Torah ou os profetas; não vim para abolir, mas para torná-los plenos. Amém! Porque vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Torah um só Yud ou um só traço, até que tudo seja cumprido. Todo aquele, portanto, que libertar1 uma [pessoa] a partir dos2 mandamentos e este ao menos ensinar assim a um homem, será chamado menor no reino dos céus, mas todo que praticar e ensinar, esse será chamado rabino no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas [professores da Torah] e p’rushim, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.

 

É importante esclarecer que as Escrituras não indicam que quem ensina alguém a pecar terá um lugar de menor importância no Reino dos Céus. Alguns líderes interpretam erroneamente esse versículo para justificar sua preferência por um papel menos significativo no Reino, afirmando que a graça os salvará mesmo que não sigam a Torá. No entanto, é crucial compreender as diferentes interpretações teológicas sobre a graça e seu papel na salvação, reconhecendo que o cumprimento das leis divinas, incluindo os ensinamentos da Torá, também é um aspecto fundamental para alcançar o Reino de Elohim. É importante analisar criticamente os argumentos desses líderes e confrontá-los com outras perspectivas teológicas, a fim de promover uma compreensão mais completa e precisa das Escrituras.

 

Assim, acreditamos que o crescimento espiritual é um processo gradual, como uma caminhada passo a passo. Ao obedecerem aos mandamentos do ETERNO, as pessoas podem descobrir que podem progredir ainda mais em sua obediência, e essa jornada de crescimento contribui gradativamente para a construção do Reino dos Céus.

 

Por Ya’akov Benlev

Texto revisado por Francisco Adriano Germano


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