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VERGONHA DE HAM – UMA REFLEXÃO SOBRE A PARASHÁ NOACH

 

 


Ham, o pai de Kena'an, vendo a nudez de seu pai, saiu e foi contá-lo aos seus irmãos. Mas, Shem e Yefet, tomando uma capa, puseram-na sobre os seus ombros e foram cobrir a nudez de seu pai, andando de costas; e não viram a nudez de seu pai, pois que tinham os seus rostos voltados. (Bereshit /Gênesis 9:22-23)

 

Ham, Shem e Yefet tinham acesso aos tesouros da intimidade de seu pai. Evidentemente que por serem seus filhos, o nível de acesso era o mais elevado possível. Atualmente, ainda que em menor grau, temos acesso à vida de nossos familiares, amigos próximos, colegas de congregação, de trabalho etc.

 

E há duas possibilidades quanto a esse tipo de acesso, aqui descritas pela Torá. De um lado, temos Ham, que viu a nudez de seu pai e foi contá-la aos irmãos. E por outro, temos os irmãos que se recusaram a vê-la.

 

A palavra "nudez" aqui no texto é a palavra "ervá", que pode inclusive ser traduzida (como o é em algumas versões) como "vergonha". Vejamos um exemplo disso:

 

Yerushalayim gravemente pecou, por isso se fez errante; todos os que a honravam, a desprezaram, porque viram a sua ervá [nudez]; ela também suspira e volta para trás. (Eichá/Lamentações 1:8)

 

Na passagem acima, o termo nudez está associado ao conhecer as entranhas do ser humano, vendo a sua iniquidade e as suas falhas.

 

Em Ruhomayah/Romanos 3:23 diz que todos pecaram e carecem da glória de Elohim. Portanto, todo ser humano tem presente em suas entranhas o pecado.

 

Acontece que quanto mais próximos estivermos das pessoas, maior será a nossa intimidade com elas e maior será a chance de estarmos expostos à sua "nudez" – isto é, maiores serão as chances de vermos suas falhas, seus erros, seus pecados, suas fragilidades enquanto ser humano e de descobrirmos o quão são pecadoras, exatamente como nós.

 

Ham tinha acesso ao pai, e podia ver a sua nudez. Shem e Yefet também. O que fez Ham? Foi ver a nudez de seu pai, e ainda foi contar aos seus irmãos.

 

Muitas pessoas são como Ham. Aliás, infelizmente isso é muito comum pois parece que o ser humano tem uma necessidade constante e absolutamente imatura de provar para si mesmo que não é pior do que o outro, tanto para Elohim quanto para o seu próximo.

 

Os hamitas (e me permito aqui um neologismo) são aqueles que, ao se aproximarem das pessoas, logo procuram sua "nudez", isto é, suas falhas, seus erros, seus pecados, fragilidades, transgressões etc. Reparem que a princípio gostam de fazer amizades, se aproximarem e podem até mesmo serem pessoas muito agradáveis no trato social. Contudo, sua aproximação é como o escorpião, que lentamente se aproxima de suas presas.

 

E o que fazem os hamitas? Gostam de saber das fragilidades do outro para depois caírem em lashon hará (pecado da língua má). Por quê? Porque contam a outros, comentam "em segredo para não fazer lashon hará" (quanta hipocrisia!), sob o pretexto de "ajudarem o irmão" a se recuperar de sua falha.

 

É fácil identificarmos se estamos caindo no erro de sermos hamitas. Eis alguns "sintomas" apresentados por quem desenvolve essa doença espiritual:

 

1 – Ao serem indagados sobre o que acham de outrem, sempre começam a frase ou terminam falando algo de negativo;

 

2 – Vivem espalhando rumores, descontextualizando frases, e repetindo o que "ouviram dizer." Os hamitas adoram boatos e fofocas;

 

3 – Preferem o "avak lashon hará" – O "traço" de lashon hará (ie. a sutileza e de coisas que eles juram não ser lashon hará) ao lashon hará mais direto.

 

4 - Assim como Ham achou que não seria pego porque seu pai estava bêbado, os hamitas nunca acham que fazem nada demais, ou se são confrontados, demonstram surpresa e covardemente tiram o corpo fora;

 

5 – Procuram outras pessoas, quer pessoalmente, quer por telefone, e-mail etc. simplesmente para falar da vida dos outros;

 

6 – Sempre fazem críticas pelas costas. Principalmente, se o criticado for um líder (um chefe, um professor, um líder de congregação etc.)

 

7 – Hamitas usam de sua língua de serpente para galgarem posições, quer sociais, quer de trabalho, quer de liderança espiritual;

 

O Ba'al Shem Tov, fundador do hassidismo, muito antes da psicanálise moderna ter conceitos semelhantes, já dizia que todo homem que olha para o outro é como se olhasse para um espelho.

 

Se, ao olhar para um espelho, o seu rosto estiver limpo, então a imagem que você encontrará será limpa. Se, ao olhar para o mesmo espelho, seu rosto estiver sujo ou desfigurado, então a imagem que encontrará não será bela.

 

Se olharmos para as pessoas o que nos saltará aos olhos serão as suas falhas! Se olhamos e, como Ham, o que vemos nos é repugnante, irônico ou nos choca ao ponto disso ofuscar qualquer qualidade ou bem que a pessoa tenha (sim, porque hamitas não espalham coisas boas dos outros), então isso significa que é o nosso próprio "rosto" (ou talvez o nosso coração?) que está cheio de imundícia e podridão. Ham viu a "vergonha" de seu pai, mas a maior vergonha estava em seu próprio coração.

 

Devemos aprender pelos exemplos bíblicos. Olhem para Moshe, para David, para Yonah (Jonas), para Shimon Kefa (Pedro), para Sha'ul (Paulo), para os patriarcas, e o que vemos? A Bíblia não esconde sua "nudez" – são pessoas com um relacionamento com YHWH absolutamente notável e, ao mesmo tempo, vemos as Escrituras Sagradas não ocultando suas falhas, seus pecados e afins. Transgressões, como a de David ou mesmo dos patriarcas das tribos, muitas vezes bem mais sérias do que as que os hamitas apontam nos outros. Ou por acaso alguém conhece uma pessoa que mandou matar o marido da outra ou que vendeu o seu irmão de escravo? E são essas pessoas que a Bíblia aponta como tsadikim (justos). Por quê?

 

Porque YHWH é um carpinteiro que não trabalha com madeiras já prontas e polidas, mas sim constrói e molda o ser humano passo a passo, em um processo que muitas vezes é difícil, demorado e doloroso. Se agirmos como hamitas, então esqueceremos que nós mesmos é que precisamos de tratamento. E como podemos garantir que aos olhos de YHWH somos melhores do que o próximo, ou mesmo do que nossos líderes? Todos temos esqueletos no armário, e coisas a tratar com o Restaurador, que é o Mashiach Yeshua.

 

Todos os dias somos expostos a “nudez” das pessoas, seja em nossas casas, em nossas famílias, em meio a nossos amigos, em nosso local de trabalho, em nossa vizinhança, em nossa congregação etc. E todos os dias temos uma escolha a fazer: continuaremos a não sermos diferentes do mundo e a agir como Ham, ou seguiremos o caminho de Shem e Yefet para honrar a YHWH a quem servimos?

 

Por Sha'ul Bentsion

 

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