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DESCONHECIDOS CONHECIDOS

 



Com medo do que os aguardava, os israelitas se perguntam se não seria melhor retornar ao Egito.

 

Há uma década, enquanto me preparava para a mudança para Jerusalém, fui agraciada – e por vezes sobrecarregada – com uma profusão de conselhos de amigos. As sugestões variavam amplamente, desde o melhor local para trilhas na Galileia até os melhores (e piores) lugares para comprar comida judaica. Contudo, em meio a essas orientações práticas, surgiram também inúmeros alertas.

 

"Leve xampu e analgésicos para o ano todo", diziam alguns, "porque será impossível encontrar os seus produtos habituais!" Outros alertavam: "Se você falar hebraico com sotaque americano, as pessoas tentarão se aproveitar de você." Havia até mesmo recomendações mais peculiares: "Lave todas as frutas e vegetais com sabão antes de comer, ou você vai ficar doente!" E, como mulher, recebi um aviso específico e bastante incisivo: "Nunca use um kipá em público; você só será atacada!"

 

Esses conselhos, por mais bem-intencionados que fossem, pintaram um quadro complexo da minha nova realidade.

 

Entrar no desconhecido pode ser assustador. É verdade para uma criança que está entrando em sua primeira montanha-russa, para um adolescente que está indo para a faculdade, para alguém que está se mudando para uma nova cidade ou que está enfrentando um novo diagnóstico.

 

Na porção da Torá desta semana, Sh'lach L’cha, Moisés envia espias para irem à frente dos israelitas e trazerem um relatório sobre como é a terra de Canaã. Doze espias partem, uma de cada tribo. Eles retornam com um cacho de uvas tão grande e pesado que são necessárias duas pessoas para carregá-lo, e um monte de histórias tão pesadas que os israelitas ficam apavorados.

 

A terra que percorremos e exploramos é uma terra que devora aqueles que nela vivem. Todas as pessoas que vimos nela são gigantes […] parecíamos gafanhotos para nós mesmos, e por isso devemos ter olhado para eles.

Números 13:32-33

 

Ao ouvirem o que os espias encontraram, os israelitas choraram, ficaram irados com Moisés e Arão e declararam que prefeririam voltar para o Egito e para a escravidão a continuar em perigo. Mesmo os protestos de dois dos espias, Calebe e Josué, não foram suficientes para tranquilizá-los.

 

Já que dez dos espias disseram que a terra estava cheia de perigos impossíveis, por que os israelitas confiariam nos dois que responderam que a verdade não era tão assustadora?

 

Ao aproximar da minha partida para Jerusalém, o acúmulo de informações e conselhos de amigos, a princípio uma fonte de preparação, tornou-se uma montanha intransponível. A empolgação da aventura foi, então, substituída pela apreensão, e a visão de aprendizado deu lugar a uma profusão de receios.

 

Contudo, a intervenção de dois amigos, com vasta experiência internacional, revelou-se um divisor de águas. Eles me ajudaram a dissipar os temores e a reconhecer que, sim, eu estava prestes a embarcar em uma jornada para um lugar novo, com costumes, culinária, política e idioma distintos. No entanto, eu contaria com apoio sólido e a orientação de professores dedicados.

 

A ideia de aprender o idioma, assimilar novas perspectivas e interações, e me integrar a uma comunidade em um país desconhecido começou a florescer. A certeza de que enfrentaria os desafios com resiliência e recursos para superá-los se enraizou. Após essa conversa transformadora, a lista de preocupações perdeu sua relevância e foi descartada. Deixei de me ver como um "gafanhoto entre gigantes" e passei a sonhar com uma jornada rica e gratificante.

 

Agora, uma década depois, a experiência real superou, e muito, as expectativas geradas por essas advertências.

 

De volta ao deserto, Moisés e Arão se prostram diante dos temores dos israelitas. No final, a maioria dos israelitas que haviam sido escravos no Egito não conseguia se imaginar entrando na terra, não conseguia se ver senão como gafanhotos, através das lentes de seus medos. Calebe e Josué, os dois espiões que conseguem reconhecer que os israelitas têm a força e os recursos para vencer, precisam levar sua sabedoria a uma nova geração de israelitas.

 

O título da leitura desta semana, como é comum, emerge dos versículos iniciais, especificamente do segundo, onde Elohim instrui Moisés a "enviar" (sh'lach l'cha) os espiões a Canaã. Essa passagem ressoa profundamente com nossa própria tendência humana de projetar nossos pensamentos para o futuro, antecipando o que virá.

 

Assim como os israelitas no deserto, somos constantemente desafiados a contemplar o futuro através do prisma de nossas forças, em vez de nos deixarmos guiar por nossos temores.

 

Por Marisa Elana James

Texto revisado por Francisco Adriano Germano

 

 

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