Vivemos cercados por notícias
difíceis: crises, doenças e violência estão em todo lugar. Diante de tanto
caos, é natural nos perguntarmos por que essas coisas acontecem e assim tentarmos
descobrir quem são os responsáveis por tanto sofrimento.
Esses questionamentos não são
novos; eles já ecoavam nos dias de Yeshua. Por isso, a passagem de Lucas 13:1–9
permanece tão viva e urgente, confrontando diretamente a realidade em que
vivemos hoje.
Tragédias não são um tribunal
moral
O texto em análise começa com
pessoas trazendo a Yeshua notícias de tragédias reais. Alguns galileus haviam
sido mortos por ordem de Pilatos, e seu sangue foi misturado aos sacrifícios
que ofereciam. Em seguida, Yeshua menciona outro evento: a queda da torre de
Siloé, que matou dezoito pessoas.
A pergunta implícita era clara:
essas pessoas morreram assim porque eram mais pecadoras?
Essa lógica ainda existe hoje.
Quando algo ruim acontece, é comum ouvirmos:
“Isso é castigo de Deus”
“Algo errado essa pessoa fez”
“Deus está julgando aquele povo”
Mas Yeshua corta esse pensamento
pela raiz. Ele diz, com firmeza: “Não.” Eles não eram mais pecadores do que os
outros.
Com isso, Yeshua nos ensina algo
essencial: tragédias não nos autorizam a julgar os outros. O sofrimento alheio
não é um termômetro automático de culpa moral. Nem tudo o que acontece pode ou
deve ser explicado dessa forma.
No entanto, Yeshua não ignora a
seriedade da situação. Ele faz algo ainda mais profundo.
O foco não é explicar a tragédia,
mas ouvir o alerta. Em vez de explicar as causas dos acontecimentos, Yeshua
muda o foco para quem está ouvindo:
“Se não vos arrependerdes, todos
igualmente perecereis.”
Essa frase não é uma ameaça
sensacionalista. É um alerta amoroso. Yeshua não diz: “Descubram quem errou”. Ele
diz: “Olhem para vocês mesmos.”
A tragédia não serve para
alimentar curiosidade, medo ou julgamento, mas para despertar consciência. O
simples fato de ainda estarmos vivos não significa que somos melhores, mas que
ainda temos tempo.
Tempo para quê? Para
arrependimento.
Arrependimento: muito mais do
que sentir culpa
Quando ouvimos a palavra
“arrependimento”, muitos pensam apenas em remorso ou tristeza. Mas, nas
Escrituras, arrependimento (teshuvá) é mudança de direção. É voltar-se para Elohim
com o coração, com as escolhas e com a vida prática.
Arrepender-se é reconhecer que
algo precisa mudar:
- Valores
- Prioridades
- Atitudes
- Compromissos
Yeshua não chama as pessoas para
uma religião mais intensa, mas para uma vida alinhada com a vontade do Pai.
A figueira que ocupa espaço,
mas não produz fruto
Para deixar isso ainda mais
claro, Yeshua conta a parábola da figueira estéril.
Um homem tinha uma figueira
plantada em sua vinha. Durante três anos, ele procurou frutos e não encontrou.
A árvore estava viva, ocupava espaço, recebia cuidados, mas não cumpria seu
propósito.
Então o dono diz algo duro, porém
justo:
“Corta-a. Por que ocupar inutilmente
a terra? ”
Essa figueira representa pessoas
que:
- Receberam oportunidades
- Ouviram a Palavra
- Tiveram tempo
- Viveram em ambiente favorável…, mas não
produziram frutos.
Entenda um ponto crucial aqui: a
ausência de frutos não é neutralidade, é desperdício. A misericórdia existe
para nos dar tempo de agir, e não como um salvo-conduto para a estagnação.
O vinhateiro, então, intercede:
“Deixa-a ainda este ano, até que
eu a escave e a adube.”
Isso revela algo precioso sobre o
caráter de Elohim:
- Ele é paciente
- Ele oferece novas oportunidades
- Ele investe mais cuidado
Mas a parábola não termina com um
final aberto otimista. Há uma condição clara: “Se der fruto, ficará; se não,
será cortada.”
A misericórdia não anula a
responsabilidade e a paciência não elimina o juízo.
YHWH não se agrada apenas de
aparência religiosa, discursos corretos ou conhecimento bíblico acumulado. Ele
procura fruto.
Para entender o que são os
frutos, precisamos remover as máscaras que costumamos colocar sobre eles. Para isso,
precisamos entender que fruto não é perfeição; árvores reais têm marcas, mas
ainda assim produzem o que é bom.
Fruto não é status religioso; de
nada vale a árvore ser vistosa se o que ela produz não serve para alimentar
ninguém. Ou seja, ele nasce da raiz, não da aparência. Ele não tem relação com
cargos, reconhecimento público ou a imagem que projetamos diante de uma
congregação.
E, por último, fruto não é apenas
pertencer a um grupo ou carregar um rótulo; o fruto é algo que transborda de
quem você se tornou, independentemente da placa ou do círculo social em que
você está inserido.
O verdadeiro fruto não é apenas
um sentimento interno, mas a evidência externa de uma vida genuinamente
transformada, que se traduz em atitudes reais e palpáveis. Ele representa o
momento em que os ensinamentos e a ética do Reino deixam de ser apenas
conceitos teóricos para se tornarem a base de cada escolha, palavra e
comportamento, tornando a presença do divino algo visível e concreto para todos
ao redor.
Aplicação direta para os
nossos dias
Vivemos em uma sociedade que
relativiza tudo. Valores são negociáveis. Verdades são adaptadas. O certo e o
errado se confundem. E muitos preferem o conforto da neutralidade.
Mas o texto de Lucas 13 nos
confronta com uma verdade simples e incômoda: não se posicionar também é uma
escolha.
Ser figueira estéril não
significa fazer o mal ativamente, mas não fazer o bem que deveria ser feito.
Um chamado ao posicionamento
Produzir fruto hoje significa,
muitas vezes, nadar contra a corrente. Significa defender valores que não estão
na moda:
- A verdade em meio à mentira
- A justiça em meio à corrupção
- A vida em meio à banalização
- A santidade em meio à relativização moral
Não se trata de agressividade,
mas de fidelidade. Não se trata de condenar pessoas, mas de não negociar
princípios.
Yeshua nos chama a viver de tal
forma que nossa vida dê testemunho. Que nossas escolhas falem. Que nossos frutos
sejam visíveis. Pois ainda há tempo — mas o tempo não é infinito.
A mensagem de Lucas 13 é, ao
mesmo tempo, séria e cheia de esperança. Séria, porque o juízo é real. Esperançosa,
porque ainda há tempo.
Enquanto a figueira não foi
cortada, há oportunidade. Enquanto respiramos, há chance de mudança.
Mas o texto nos lembra: o tempo
não deve ser desperdiçado!
Conclusão
As tragédias nos lembram da
fragilidade da vida. A figueira nos lembra da responsabilidade de viver com
propósito.
Portanto, a questão final não é
entender por que certas coisas acontecem com os outros, mas sim olhar para nós
mesmos. O que realmente importa, ao encerrarmos esta reflexão, é responder: que
tipo de fruto a minha vida está produzindo?
Porque, no fim, não será a aparência
que contará, mas o fruto. E enquanto há tempo, ainda podemos frutificar.
Francisco Adriano
Germano

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