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QUANDO A OMISSÃO SE DISFARÇA DE VIRTUDE


 

Há uma ideia recorrente entre os crentes em Yeshua: como os governos são passageiros e somente YHWH governa para sempre, não deveríamos nos preocupar excessivamente com a política. Afinal, governantes passam, sistemas mudam e nossa esperança não está neste mundo. O raciocínio parece piedoso, mas contém um equívoco: confundir a transitoriedade do poder humano com a irrelevância das decisões humanas.

 

Não depositar a esperança em governantes é um princípio bíblico. Usar esse princípio para justificar a indiferença diante de suas ações é outra coisa.

 

Em Isaías 2:22, lemos:

 

“Afastai-vos, pois, do homem cujo fôlego está no seu nariz; porque em que se deve ele estimar?”

 

O profeta confronta a tendência humana de depositar confiança na própria criatura, como se sua autoridade fosse permanente e sua capacidade, ilimitada. O homem depende de um fôlego que não controla. Seu poder é temporário; sua existência, limitada.

 

Mas o texto não ordena que ignoremos as ações humanas. Ensina-nos a não transformar homens em objetos de confiança absoluta. Reconhecer a soberania de YHWH não significa renunciar à responsabilidade de discernir o que os homens fazem com o poder que receberam.

 

A Bíblia não canoniza a omissão

 

Isaías não se limitou a anunciar a soberania divina. Também denunciou a corrupção moral de sua sociedade:

 

“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que põem as trevas por luz, e a luz por trevas.” Isaías 5:20

 

Essa advertência não permite que a conveniência substitua o discernimento. Quando valores são invertidos, injustiças são justificadas e comportamentos nocivos são tratados como virtudes, o silêncio não transforma a realidade em algo moralmente neutro.

 

A Escritura apresenta homens que compreenderam essa responsabilidade. Natã confrontou Davi por seu pecado (2 Samuel 12:1-7). Elias confrontou Acabe (1 Reis 18:17-18). Daniel permaneceu fiel diante de decretos contrários à sua obediência a Elohim (Daniel 6:10-13). Nenhum deles tratou a autoridade humana como absoluta, nem confundiu respeito com submissão moral irrestrita.

 

O princípio é claro: a autoridade de um governante não torna justas suas decisões, assim como a transitoriedade de seu governo não torna irrelevantes suas consequências.

 

Mansidão não significa silêncio

 

Outro argumento frequente consiste em afirmar que o crente deve evitar confrontos políticos para preservar os frutos do Espírito. Amor, paz, mansidão e domínio próprio são, de fato, virtudes indispensáveis (Gálatas 5:22-23). O problema começa quando essas virtudes são utilizadas para desqualificar qualquer posicionamento contundente.

 

Mansidão não é covardia. Domínio próprio não é passividade. Amor ao próximo não exige tolerância moral diante de tudo o que o prejudica.

 

Yeshua ensinou a falar a verdade, e sua atuação demonstra que a fidelidade a Elohim não implica evitar toda confrontação. Ele denunciou a hipocrisia religiosa, expôs contradições e condenou práticas que corrompiam a relação entre o homem e Elohim (Mateus 23:13-33).

 

Isso não concede licença para insultos gratuitos, desprezo pessoal ou acusações sem fundamento. Existe uma diferença entre condenar uma conduta e reduzir uma pessoa a ela. A crítica política pode ser firme sem se converter em ódio; pode ser incisiva sem abandonar a responsabilidade com as palavras.

 

O fruto do Espírito deve governar a maneira como nos posicionamos, não servir de pretexto para que deixemos de nos posicionar.

 

Não escolher também produz consequências

 

A neutralidade política costuma ser apresentada como uma posição exterior ao conflito. Na prática, porém, as decisões coletivas não ficam suspensas à espera daqueles que preferem não participar. Alguém votará, alguém exercerá o poder e alguém determinará os rumos da sociedade.

 

Quando uma pessoa se abstém de escolher entre alternativas concretas, não impede que uma delas prevaleça. Apenas deixa essa decisão nas mãos de outros.

 

Isso não significa que toda eleição ofereça uma alternativa plenamente satisfatória, nem que votar em determinado candidato represente aprovação irrestrita de suas ideias. O discernimento exige avaliar propostas, condutas, consequências e limites. Há situações em que nenhuma opção corresponde integralmente aos princípios que defendemos. Ainda assim, a dificuldade de escolher não elimina a responsabilidade de avaliar o que está em jogo.

 

Josué declarou ao povo de Israel:

 

“Escolhei hoje a quem sirvais.” Josué 24:15

 

O princípio da escolha atravessa as Escrituras. Somos responsáveis por nossas decisões, mas também precisamos reconhecer que a omissão deliberada pode ter consequências previsíveis.

 

Se você não participa da escolha, outros escolherão. E, se a decisão produzir consequências que poderiam ter sido evitadas ou reduzidas por sua participação, não poderá tratar a própria omissão como se ela não tivesse importância.

 

Nossa esperança está em YHWH; nossa responsabilidade permanece

 

Não precisamos idolatrar políticos para reconhecer a importância da política. Não precisamos transformar partidos em identidades religiosas para avaliar moralmente suas ações. Tampouco precisamos cultivar ódio para denunciar injustiças.

 

O crente deve desconfiar de todo poder humano que reivindique autoridade absoluta, mas não pode usar essa desconfiança como justificativa para abandonar o discernimento. A soberania divina não anula a responsabilidade humana.

 

YHWH continua soberano quando um governante vence uma eleição, quando outro perde o poder e quando uma sociedade colhe as consequências de suas escolhas. Essa soberania, porém, não transforma nossas decisões em atos sem importância.

 

A questão, portanto, não é se devemos colocar nossa esperança nos governos. Não devemos. A questão é se essa esperança em Elohim nos torna indiferentes ao bem e ao mal praticados pelos homens.

 

Isaías já nos advertiu contra a inversão dos valores. A Escritura também nos chama a julgar com justiça, rejeitar o mal e praticar o bem.

 

Governos passam. As consequências de suas decisões permanecem na vida de pessoas reais. YHWH reina para sempre, mas isso não nos dispensa de responder pelo que fazemos nem pelo bem que, podendo promover, deliberadamente deixamos de fazer.

 

Francisco Adriano Germano

 

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